Jogali!

Início › Blog

EspaçoHistória

Como é viver numa estação espacial: sono, comida, treino e água

Como os astronautas dormem, comem, treinam e reciclam água na Estação Espacial Internacional, e a história das estações, da Salyut à Tiangong.

Equipe Jogali · 7 min de leitura

Agora mesmo, enquanto você lê esta frase, há gente morando a cerca de 400 quilômetros acima da sua cabeça. A Estação Espacial Internacional tem tripulação sem interrupção desde novembro de 2000. Como é a rotina num lugar onde nada fica parado no chão?

Uma casa do tamanho de um campo de futebol

De ponta a ponta, a estação mede 109 metros, quase o comprimento de um campo de futebol. Boa parte dessa medida é a treliça, uma viga externa de 94 metros que segura os painéis solares. A parte pressurizada, onde dá para tirar o capacete e respirar, tem cerca de 1.000 metros cúbicos. Descontando equipamentos e carga, sobram 388 metros cúbicos para viver. A NASA compara o espaço interno a uma casa de seis quartos: são seis cabines de dormir, dois banheiros, uma academia e uma janela panorâmica.

A Estação Espacial Internacional vista de fora, com os módulos no centro, os grandes painéis solares nas pontas e a curva da Terra embaixo
A estação vista de uma nave Soyuz que acabava de partir, em 2018. Imagem: NASA/Roscosmos (domínio público)

O conjunto pesa perto de 420 toneladas e foi montado em órbita, peça por peça, em 42 voos de montagem. Participam do projeto cinco agências espaciais e 15 países. A tripulação normal é de sete pessoas, às vezes mais durante as trocas de equipe. Os números oficiais estão na página de fatos e números da estação, da NASA.

Dezesseis amanheceres por dia

Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), a estação voa a cerca de 400 km de altitude, a 28.800 km/h, e completa uma volta na Terra em uns 92 minutos. A NASA arredonda para 16 voltas por dia. E, a cada volta, um nascer e um pôr do sol. Para quem está a bordo, o dia de 24 horas não vem da janela: vem do relógio e da agenda.

A altitude não é fixa: um restinho de atmosfera freia a estação aos poucos, e de tempos em tempos motores de naves acopladas a empurram de volta para cima.

Os módulos: um quebra-cabeça internacional

A estação é feita de módulos, como cômodos encaixados por corredores. Alguns marcos da montagem:

  • Zarya (1998): o primeiro módulo a chegar à órbita, em novembro de 1998. Foi construído pela Rússia e financiado pelos Estados Unidos.
  • Zvezda (2000): o módulo de serviço russo, com sistemas de suporte à vida. Ele nasceu como reserva do módulo central da estação Mir.
  • Columbus (2008): o laboratório europeu, instalado em 11 de fevereiro de 2008 com o braço robótico da estação.
  • Cupola (2010): o observatório com seis janelas laterais e uma no topo. A janela de cima, com 80 cm de diâmetro, é a maior já levada ao espaço. Todas têm persianas contra micrometeoritos.
  • Prichal (2021): um módulo russo de acoplagem, a peça mais recente, instalada em 26 de novembro de 2021.

Como os astronautas dormem

Em microgravidade, dá para dormir em qualquer posição. O problema é ficar no lugar. Cada tripulante tem uma cabine particular, que a ESA compara a uma cabine telefônica, e dorme num saco de dormir preso à parede. Sem as amarras, a pessoa poderia flutuar durante o sono e bater em algum equipamento.

A astronauta Samantha Cristoforetti dentro de um saco de dormir verde preso à parede de sua cabine na estação
Samantha Cristoforetti, da ESA, na sua cabine de dormir, em 2014. Imagem: NASA (domínio público)

Ventilação é coisa séria. Em órbita, o ar quente não sobe sozinho como acontece na Terra. Sem um ventilador ligado, o gás carbônico expirado pode formar uma bolha em volta da cabeça de quem dorme. A luz é outro desafio: com 16 amanheceres por dia, os astronautas podem usar máscaras nos olhos e fechar as persianas das janelas. As lâmpadas mais novas da estação permitem ajustar a cor e a intensidade da luz, para ajudar o corpo a entender quando é hora de acordar ou de dormir.

O que se come em órbita

Segundo uma ficha técnica da NASA, a comida da estação se divide em quatro tipos:

  • Reidratável: sopas, massas e cereais desidratados, que recebem água antes de comer.
  • Termoestabilizada: pratos aquecidos em latas ou bolsas para eliminar micróbios, prontos para esquentar.
  • Irradiada: algumas carnes, também prontas para aquecer.
  • Forma natural: castanhas, barras de cereal e biscoitos, que saem do pacote direto para a boca.

Alguns detalhes mostram como a microgravidade muda tudo. Sal e pimenta em pó sairiam flutuando e poderiam entupir filtros ou entrar nos olhos de alguém. Por isso, o sal vem dissolvido em água e a pimenta, suspensa em óleo, em frascos de conta-gotas. O pão também é um problema, porque solta farelo. A solução, usada desde 1985, é a tortilha de trigo, que não esfarela e serve para enrolar qualquer recheio.

A mesa de refeições fica no módulo Zvezda, com aquecedores embutidos. O cardápio mistura comida americana e russa, e frutas frescas só aparecem quando chega uma nave de carga. O lixo também precisa de destino: as embalagens vazias vão para dentro de naves de carga descartáveis, que queimam ao reentrar na atmosfera.

Duas horas de academia por dia

O corpo humano se adapta rápido à falta de peso, e nem sempre para o bem. Ossos e músculos que não precisam sustentar o corpo começam a enfraquecer. A NASA estima uma perda média de 1% a 1,5% da densidade óssea por mês nos ossos que mais sustentam peso, como os da coluna e do quadril.

A resposta é treino diário: os tripulantes fazem, em média, duas horas de exercício por dia. Os aparelhos são adaptados:

  • ARED: um aparelho de musculação que usa resistência pneumática no lugar de anilhas, que não pesariam nada em órbita.
  • Esteira T2: o astronauta corre preso à esteira por um arnês, para não sair flutuando a cada passada.
  • CEVIS: uma bicicleta ergométrica com um sistema de isolamento de vibração.
A astronauta Jasmin Moghbeli correndo na esteira T2, presa por um arnês com elásticos ligados ao piso da esteira
Jasmin Moghbeli corre na esteira T2, presa por arnês e elásticos. Imagem: NASA (domínio público)

Mesmo assim, segundo a NASA, o exercício reduz a perda, mas não a elimina por completo.

A água que dá a volta

Cada tripulante precisa de quase quatro litros de água por dia, para beber, preparar comida e se lavar. Levar tudo isso de foguete seria caro demais. Por isso, a estação recicla quase tudo:

  1. Desumidificadores capturam a umidade que sai da respiração e do suor da tripulação.
  2. Um processador destila a urina a vácuo para recuperar a água.
  3. Desde a instalação de um processador de salmoura, até a água que sobrava nesse resíduo é extraída.
  4. Tudo passa por filtros e tratamento antes de voltar para as torneiras.

Em 2023, a NASA anunciou que o sistema chegou a 98% de recuperação total da água, contra 93% a 94% antes do processador de salmoura. Segundo os engenheiros, a água final sai melhor que a das redes de abastecimento das cidades. Isso importa para viagens a Marte, onde não haverá reabastecimento.

Antes da ISS: meio século de casas no espaço

A estação internacional é herdeira de uma longa linhagem:

  • Salyut 1 (1971): lançada pela União Soviética em 19 de abril de 1971, foi a primeira estação espacial. Sua primeira tripulação ficou 24 dias a bordo, um recorde na época, mas morreu na volta, quando a cápsula perdeu pressão.
  • Skylab (1973): a primeira estação americana, lançada por um foguete Saturno V em 14 de maio de 1973. Recebeu três tripulações, que ficaram 28, 59 e 84 dias. Tinha geladeira, freezer e um cardápio de 72 itens. Caiu em 11 de julho de 1979, sobre o Oceano Índico e o oeste da Austrália.
  • Mir (1986): o bloco central foi lançado em fevereiro de 1986, e cinco módulos de pesquisa chegaram depois. Foi a primeira estação realmente modular. Recebeu nove visitas de ônibus espaciais americanos e o cosmonauta Valeri Poliakov passou mais de 430 dias seguidos a bordo, recorde até hoje. A Mir foi derrubada de forma controlada no Pacífico em 23 de março de 2001.
  • Tiangong (2021): a estação chinesa. O módulo central Tianhe foi lançado em 29 de abril de 2021, e os laboratórios Wentian e Mengtian chegaram em julho e outubro de 2022. Costuma receber três astronautas por vez, em missões de cerca de seis meses.

O Brasil também tem um capítulo nessa história. Em março de 2006, Marcos Pontes viajou na nave russa Soyuz TMA-8 e passou oito dias na estação, onde fez oito experimentos. O voo, acertado entre a Agência Espacial Brasileira e a agência russa, foi batizado de Missão Centenário, em homenagem aos cem anos do voo do 14-Bis de Santos Dumont. A NASA conta essa história na página sobre os visitantes de curta duração da estação.

Explore a sua própria estação

No Jogali!, a Estação Orbital leva essa curiosidade para um jogo de exploração em 3D. É ficção, claro: lá dentro existe gravidade, e você anda, corre e escala paredes e tetos em vez de flutuar entre os módulos. As missões pedem que você encontre a sala dos espécimes alienígenas e depois explore o convés da tripulação, com corredores, portas automáticas e janelas que mostram o espaço lá fora. Se você sair da estação, aí sim fica sem peso. Os astronautas de verdade ainda ganham uma coisa que nenhum jogo tem: dezesseis amanheceres por dia.

Continue lendo