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A história do dominó e três dicas de estratégia para jogar melhor

Da China da dinastia Song às mesas do Brasil: de onde veio o dominó, por que o jogo tem 28 ou 55 pedras e como contar, controlar as pontas e saber trancar.

Equipe Jogali · 7 min de leitura

O dominó parece um jogo sem mistério: pedras com pontinhos, uma fila na mesa, alguém bate. Mas cada pedra é, na verdade, o resultado de jogar dois dados. Essa ideia atravessou séculos, mudou de forma na Europa e chegou às praças do Brasil com nomes próprios, regras de bairro e muita discussão sobre quem trancou o jogo.

Na China, as pedras eram cartas

A versão chinesa é diferente da que jogamos. O etnólogo Stewart Culin, num relatório do Museu Nacional dos Estados Unidos referente a 1893, descreveu um jogo de 32 peças de madeira, osso ou marfim. Não existe a pedra em branco: a série começa no 1-1. São 21 combinações diferentes, exatamente os 21 resultados possíveis de dois dados de seis faces, e onze delas aparecem repetidas. O relatório completo, Chinese Games with Dice and Dominoes, está digitalizado no Internet Archive.

Desenho a lápis de dois homens chineses jogando dominó numa mesa redonda enquanto um terceiro observa; ao fundo, cartazes com caracteres chineses
Dominó chinês num clube da Baxter Street, em Nova York, por volta de 1874, no traço de Winslow Homer. Imagem: Winslow Homer / Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum (domínio público)

Os textos chineses citados por Culin chamam essas peças de “cartas”: “cartas pontilhadas”, “cartas de marfim”. Um relato antigo citado por ele fala em quatro jogadores com 8 peças cada e fichas para quem vencia.

E quando o jogo surgiu? É aí que entra uma data famosa: 1120, durante a dinastia Song. Uma tradição registrada em dicionários chineses diz que, nesse ano, um funcionário apresentou as peças ao imperador Huizong, e que elas se espalharam no reinado do filho dele, Gaozong. Culin reproduz essa história, mas também cita o estudioso W. H. Wilkinson, que leu o trecho com mais cuidado. O próprio texto chinês avisa que não se pode concluir que o jogo nasceu ali. Segundo Wilkinson, o pedido de 1120 foi para definir a forma oficial do jogo, com 32 peças. O jogo, portanto, já existia antes.

O trecho citado por Culin ainda mostra como o conjunto era pensado. As duas peças 6-6 formavam o “Céu”, e seus 24 pontos lembravam os 24 períodos solares do calendário chinês. As duas peças 1-1, com 4 pontos, eram a “Terra”, um para cada ponto cardeal.

A chegada à Europa

O dominó europeu aparece bem mais tarde, no século XVIII. Culin, citando a enciclopédia alemã Brockhaus, registra que o jogo chegou à Alemanha pela França, vindo da Itália, por volta da metade daquele século. Ele admite que não encontrou o elo com o jogo chinês, e a questão continua em debate.

A versão europeia mudou duas coisas importantes:

  • Entrou o branco. Com o zero, o conjunto passa a ter todas as combinações de 0 a 6, sem repetir nenhuma: 28 pedras.
  • O jogo virou de encaixe. Em vez de comparar mãos, os jogadores montam uma fila, e cada pedra precisa repetir o número da ponta onde entra.

Na Inglaterra, segundo um leitor da revista Notes and Queries citado por Culin, o dominó teria chegado com prisioneiros franceses no fim do século XVIII. O Victoria and Albert Museum, em Londres, guarda um estojo de jogos feito por um prisioneiro de guerra francês entre cerca de 1797 e 1815. Dentro dele há dados, cartas pintadas em osso e 56 pedras de dominó, o que equivale a dois jogos de 28 (há duas pedras 0-0). O Horniman Museum, também em Londres, tem um conjunto de 28 pedras de osso que uma etiqueta antiga atribui a prisioneiros franceses do início do século XIX. O museu deixa claro que essa autoria vem da etiqueta.

De onde vem o nome

“Domino”, em francês, é o nome de um capuz preto e branco usado no inverno por religiosos. Depois, a palavra passou a designar uma fantasia de baile de máscaras. A explicação mais repetida é que as pedras, pretas com pontos brancos ou brancas com pontos pretos, lembravam essa roupa. As referências de história dos jogos, como o arquivo de regras Pagat, a apresentam como a origem “provável”, não como fato documentado.

Capa longa de seda clara, com capuz e fendas laterais para os braços, fotografada sobre fundo bege
Um “domino” de verdade: capa de seda britânica do século XVIII, do tipo usado em bailes de máscaras. Imagem: The Metropolitan Museum of Art (domínio público, Open Access)

Duplo-seis, duplo-nove e além

O conjunto padrão é o duplo-seis: 28 pedras, do 0-0 ao 6-6. Com números de 0 a 6, há 7 carroças (pedras com os dois lados iguais) e 21 pedras com lados diferentes. Somando todos os pontos de todas as pedras, dá 168.

Para mesas com mais gente, existem conjuntos maiores. O duplo-nove vai do 0-0 ao 9-9 e tem 55 pedras, somando 495 pontos. Em Cuba, por exemplo, o jogo em duplas costuma usar esse conjunto: cada um dos quatro jogadores recebe dez pedras e quinze ficam de fora. Nos Estados Unidos, o Mexican Train usa o duplo-doze, com 91 pedras.

O dominó no Brasil e na América Latina

O arquivo Pagat descreve o dominó em duplas latino como especialmente popular na Espanha e na América Latina. São quatro jogadores, parceiros sentados frente a frente, sete pedras para cada um e nenhum monte para comprar. Na primeira mão, começa quem tem o 6-6. Se todos passam em seguida, o jogo está trancado e vence a dupla com menos pontos na mão. Em algumas versões, bater com uma pedra que não é carroça e serviria nas duas pontas rende 100 pontos de bônus: é o capicú.

Dois homens idosos jogam dominó numa mesa ao ar livre, com pedras brancas na mesa e um suporte de madeira segurando as pedras de um jogador; ao fundo, um mural colorido
Partida de dominó em Little Havana, bairro de origem cubana em Miami, nos Estados Unidos. Imagem: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público)

No Brasil, os regulamentos de campeonato que consultamos também usam duplas, mas cada lugar tem sua tabela. Dois exemplos mostram como as regras variam:

  • Dominó de pontos. No regulamento dos jogos universitários da UFAM, em Manaus, a partida vai a 200 pontos. Os jogadores pedem pontos conforme a soma das pontas da mesa. O texto pune com 20 pontos quem pede 10 quando as pontas somam 9. O “passe geral” vale 50 pontos. A lógica lembra a família All Fives, em que se marca ponto quando a soma das pontas dá múltiplo de cinco.
  • Dominó de contagem simples. Nos Jogos de Integração da Terceira Idade de Joinville (SC), a partida vai a 150 pontos. Se o jogo fecha, a dupla com menos pontos vence e leva os pontos da outra. Se há empate na contagem, perde a dupla que fechou.

Nos dois casos, e também no regulamento dos jogos de servidores de Manaus, quem abre a primeira partida é quem tem o 6-6, a carroça de sena. E todos punem o “gato”, a pedra posta onde não encaixa.

Três dicas de estratégia para começar

Sorte conta, mas quem presta atenção joga melhor.

  1. Conte as pedras de cada número. No duplo-seis, cada número aparece em exatamente 7 pedras, já contando a carroça. No duplo-nove, em 10. Se a ponta mostra 4 e você vê cinco pedras com 4 na mesa e tem uma na mão, só falta uma no jogo inteiro. Essa conta diz se a ponta ainda está “viva” ou se está prestes a fechar.
  2. Controle as pontas. Tente deixar nas pontas os números que você tem de sobra e tirar os que você não tem. E observe os outros jogadores. Nas regras em que é obrigatório jogar quando se pode, quem passa, ou precisa comprar, não tem nenhum dos dois números das pontas naquele momento. Se o próximo jogador acabou de passar no 3, abrir mais um 3 pode fazê-lo passar de novo.
  3. Saiba quando trancar. O jogo tranca quando ninguém consegue jogar. Sem monte, ou depois que o monte acabou, só existe um jeito de isso acontecer: as duas pontas mostram o mesmo número e todas as pedras dele já estão na mesa. Antes de fechar, faça a conta. No duplo-seis, os pontos somam 168. Tire o que já está na mesa e o que está na sua mão: o resto está com os outros (e no monte, se houver). Se a sua mão é leve, trancar pode valer a pena. Se você está com carroças pesadas, como o 6-6 ou o 5-5, deixe o jogo correr.

Uma regra prática une as três dicas: livre-se cedo das pedras de muitos pontos e das carroças. As pedras pesadas custam caro numa tranca. Já as carroças encaixam em menos lugares, porque têm um número só.

Para testar na mesa do Jogali

O Dominó do Jogali usa o formato de cada um por si, com monte para comprar. No modo Clássico, é o duplo-seis de 28 pedras, para até 4 pessoas. Na Mesa grande, é o duplo-nove de 55 pedras, para até 8. Na primeira rodada começa quem tem a maior carroça na mão (a de sena, se ela não ficou no monte). Quem não tem pedra que encaixe compra até conseguir. Quando o monte acaba, passa a vez. Se ninguém consegue jogar, o jogo tranca e vence quem tem menos pontos na mão. Dá para jogar contra o computador ou abrir uma mesa para os amigos. As três dicas valem lá também.

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